domingo, 18 de junho de 2017

Aquilo que somos nós

Minhas mãos geladas deslizam por esse teclado, que há um tempo atrás seria somente um lápis e uma folha aleatória. Atrás de alguma capa de caderno, num cantinho no livro de português, escrever era uma necessidade para a Renata de 17 anos. E onde ela foi parar depois de tantos textos escritos, outros apagados, outros dedicados, outros silenciados?

Meus olhos se guiam pela luz e vêem o céu estrelados. Há um tempo atrás teria uma estrela que só a Renata de 15 anos via, da varanda da sua casa. Ela passava uns bons minutos sentado observando o céu e quando a estrela chegava, lá elas batiam um papo. A estrela lhe trazia esperança de amor. Era a metáfora perfeita: no horizonte, a esperança brilhava como uma estrela. Hoje não tenho mais varanda, mas nem é esse o problema. Não encontro mais a estrela. 

Aqueles compridos cabelos, rebeldes, deixavam a Renata de 13 anos encabulada. Todo dia era um mistério de como ele estaria, e como ele a veria então? Mas a melhor parte era sempre, de alguma forma, e muitas vezes inesperadamente, ela ganhava um elogio, algo como "seu cabelo está sempre bonito". Era sempre bom saber que ele se encantava pelos cabelos de Renata mesmo ela os odiando. Faz tempo que não ouço um elogio como esse, por alguém como esse.

Os pés a levavam sempre para um destino que ela gostava, e costuma ser bom, fazendo um sol ou chovendo. Ela se sentia bem em ir ao centro da cidade, e trabalhar por lá. Ela estava se descobrindo como nunca antes. As saias curtas, que insistia em usar no calor, tornava a Renata de 19 anos uma pessoa que estava aceitando seu corpo e entendendo como e onde era melhor de se andar. Hoje não sei mais quais roupas usar.

Mas nesses últimos meses, tenho escrito melhor num caderninho, tenho me vestido mais confiante, e me feito mais elogios (decidi que eu mesmo preciso fazer isso por mim). Até mesmo encontrei a estrela que há anos não via! E me dei conta de que eu sempre estive aqui, ao meu lado, mas não ligava muito pra isso até então.

Numa dessas, me dei conta que farei 23 anos. É uma idade diferente, não sei por que acho isso. A Renata de 22 anos aprendeu tanto, e viveu tanta coisa, que nem acredita que viveu tudo isso e ainda saiu de tudo com apenas 22 anos. Há um ano atrás, minha vida era decididamente diferente de tudo que tinha vivido e tudo que vivo hoje. Podem achar que o diferente é que hoje sou formada (finalmente) e tudo parece igual. Mas tem coisas dentro de mim que são outras, que são de uma Renata que eu sabia que podia existir aqui dentro, mas algumas coisas me desencorajavam a sê-la. Na verdade, achava que não tinha o direito de ser - e achava por ser a boa e velha intensa, que acha que ou é tudo ou é nada.

A minha diferença de perspectiva me fez enxergar que tudo pode ser, e ser intensamente, e isso não significa ficar na faixa da esquerda ou direita. E se eu quiser andar entre as faixas, não posso ser intensamente isso também? Não se trata de posições políticas, veja bem. Mas sim de posicionamentos na vida, que são inteiramente próprios de seu momento e de sua função. Eu achava que ou você ama ou odeia. Ou se convive ou se ignora. Achava que as pessoas tinham que ser infinitamente aquilo que ela se propõem a ser em sua vida, e que eu tinha que amar todas porque afinal era minha obrigação por conta da relação. Mas tem tanta relação ruim por ai, na qual se ama e torna-se cega, todo mundo só se machuca. E machuca intensamente. Eu nunca tinha parado para ponderar realmente as coisas, eu somente pensava sobre tudo e tomava umas decisões. Mas poucas vezes eu ponderei e troquei de reação. Troquei de reação e tentei um equilíbrio - ou pelo menos uma posição que fosse intensamente saudável de verdade para mim.

Esse ano eu aprendi o que é se machucar. Foi um se machucar por própria conta e risco, e aprendi que a voz que dentro de nós fala o que fazer é sempre a voz mais consciente de se ouvir - se eu a ouvisse, talvez eu teria me machucado antes, ou menos, não sei. Me machuquei por me envolver em coisas que não me faziam bem, sejam em namoros que foram de mal a pior, ou a amizades que não faziam nenhum sentido e eu achava que ainda faziam. Me machuquei, mas a vida é cheia de provas para sabermos se aprendemos como nos posicionar ou não. Ela nos testa para ponderarmos e aceitarmos se aquilo nos faz bem de verdade ou é só farsa - farsa que eu criei, que os outros criaram, não importa, eu cai. 

Provas, lições, estudos, seminários, tudo isso foi o que tive nesse ano. Tanto literalmente quando metaforicamente. E descobri que a Renata que sabe estudar, a Renata que gosta de se divertir e é espontânea, a Renata que toma decisões mesmo elas sendo muito difíceis, a Renata que chora para Deus e confia no universo, a Renata que gosta de pensar na vida, a que precisa escrever e a que é intensa estão vivas dentro de mim. Estão todas aqui, e eu sou tudo isso. Mas pra isso, eu tive que matar um pouco a Renata que não controla os impulsos, que faz as coisas por mendigar carinho, que quer - no fundo - que todos a aceitam, a Renata que planeja todos os passos da vida e se desespera se algo não vai bem. Para gente viver, temos que aprender a morrer. Agora sim o livro em que li essa ideia faz sentido. 

Vou aos 23 anos sabendo que tive e tenho que matar um pouco essas coisas dentro de mim para poder viver de forma mais leve e mais Renata - a parte Renata que eu gosto realmente. Afinal, eu serei eu para o resto da vida, e a única pessoa qual eu tenho que minimamente suportar sou eu, certo? Então que seja em qualquer faixa de trânsito: a esquerda, a direita, a no centro delas, na de pedestres, não importa...o que importa é que eu seja eu mesma cada vez mais eu mesma me procurando, e sendo, eu mesma. Seja essas todas de 17, 15, 13 ou 19 anos...a idade não é o mais essencial. O essencial é com o que você sonha e o que faz para sonhar e atingir tudo isso que seu coração grita, sorrindo. Eu grito, sorrindo, beijando a vida, sorrindo - que é o melhor dos beijos, aliás - e agradeço por tudo que já fui e tudo que ainda vou ser.


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