quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Tornozelos

Na praça havia uma velha. Um velha senhora, com um vestido florido, uma grande bolsa e um livro antigo em suas mãos. Algumas migalhas ao redor do banco, talvez tenha sido ela que as colocou ali para alimentar os pássaros. A estação era meia: aquele sol que aquece e o vento que esfria. Estranho se fosse o contrário. Por volta das onze da manhã, o sol estava vencendo, e havia certo calor no ar. E a senhora estava lá, de vestido. Talvez por acreditar que o calor do sol dominaria o parque durante a hora do almoço, que já estava próxima, a senhora estava de vestido florido que ia até os tornozelos. 

O horário das onze horas da manhã sempre me deixou um tanto depressiva. É manhã, mas está quase no final da manhã, o cheiro dos almoços já estão invadindo os olfatos, o movimento tranquilo da manhã torna-se, de alguma forma, menos tranquilo. É possível ouvir mais conversas, mais passos apressados, mais relógios. Os compromissos inadiáveis tornam-se mais inadiáveis ainda, as buzinas aparecem com mais frequência. Mas, apesar desse sentimento de tontura, de nostalgia, de desconforto, de quase tranquilidade, a senhora estava de vestido florido. A senhora de vestido florido até os tornozelos estava sentada no banco da praça recebendo a luz solar, às onze da manhã. Onze e dezessete, mais especificamente. 

Porém, naquela manhã, a senhora e seu vestido florido até os tornozelos estavam olhando para baixo. Tinham a leveza de uma jovem que sofreu por amores, juntamente com a firmeza de uma mulher que já cedeu demais em muitas situações e que também se posicionou escolhendo seus princípios valiosos. Talvez esses princípios tenham caído por terra, tenham se descarregado ao longo da vida, tenham se desidratado nas rugas e marcas do rosto da senhora do vestido florido, talvez tenham ficado nos tornozelos, talvez não façam mais sentido para ela. Mas a firmeza se fez presente. Mais do que isso, foi a própria senhora que deu vida à firmeza. E lá estava. Mas, apesar disso, havia também a leveza e drama de uma jovem que sofreu por amores. Por que, afinal de contas, o coração dela parecia leve mas, ao mesmo tempo, a senhora possuía a feição de quem sofre por amores?

Talvez o sofrer seja pelos quases que já teve em sua vida. Talvez os amores nem sejam tantos assim, e sim por não terem sido, nenhum deles, "o" amor. Ah...o amor. Quase que eu o vivi.

Mas, o que dizer para uma senhora que sofre por amores, por quases, se se trata de uma senhora, se o vestido vai até seus tornozelos, se já passou tanto pela vida, se já viveu tanto na firmeza, no ceder, nas flores daquele vestido?

Cabisbaixa. O que dizer a uma senhora que está cabisbaixa, que está refletindo no banco da praça às onze e dezessete da manhã, que carrega um livro antigo que contém anotações nas margens das folhas, e que está sozinha?

Então ela respira fundo e olha para o céu. E ali permanece. Respira fundo. Parece até que o sol brilhou mais forte, que o ventou ventou mais forte, que os passos ficaram mais altos de se escutar, que os pássaros também entraram na confusão das onze e dezessete e se colocar a cantar, que os relógios e as conversas e os olfatos se envolveram naquela hora do almoço que está próxima.

Onze e dezoito.

E então me parece que a feição mudou-se de repente. 

As migalhas de pão, próximos do banco, continuam ali. Nenhum pássaro se achegou. Talvez fosse isso que ela tanto olhava. Talvez esse fosse o motivo do olhar juvenil carregado de leveza. Será que se questionava se o pão estava estragado, se não havia mais pássaros naquele parque quase barulhento, se estava emanando alguma forma de repulsa, onde afinal estavam as maritacas daquele parque que tanta farfalham as oito da manhã? 

Ou será que a leveza repousava no fato de ainda ser onze e dezenove da manhã, o sol estava a abraçar quem quer que fosse, os tornozelos estarem à mostra?

Ou será que refletia por conta dos quases em que a vida tropeça?

Talvez seja por isso que o vestido florido terminava nos tornozelos: caso algum dos quase amor apareça, ela estará pronta. 

Onze e dezenove.

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