O que eu era antes de você? Eu, assim como
hoje, depois de você, sou eu mesma que vos falo. A diferença do eu está nos
próprios advérbios: se eu divido algo em antes e depois, com certeza uma coisa
é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Eu ando lendo meus próprios textos para
perceber o que eu era antes, e todos os meus antes. Antes desse, antes daquele.
Leio meu antes, com meus olhos de depois. As emoções se afloram, me provocam,
me animam. Me entristeciam, no antes, mas no depois, é uma tristeza bonita.
Calma, eu vou explicar: sabe quando você vê alguém mais novo que você fazendo
algo que você mesmo fez, quando tinha aquela idade? Dá uma sensação de
identidade, mas a identidade relaciona-se com o seu antes, e não o depois
disso. O antes se identifica, o depois, acata e entende. O depois confia e
permite que se faça, sabendo das consequências. O depois vê um filme e lembra
do que se causou após a ação, e sorri, zombando de seu próprio antes e achando,
de certo modo, engraçado.
Então, me sinto assim, dou um sorriso
macio e calmo, certa dos fins que aquilo levou. Depois, dou um beijo na testa e
vou embora.
Hoje, eu preciso ter confiança no meu
depois. Confiança de que daqui um tempo vou olhar para o meu eu de agora e,
enternecida, desejar um bom dia e fazer-me um chá. Para eu passar por isso,
preciso, justamente, de mim mesma.
Confiança em mim mesma, lembrar que apesar
de o hoje ser diferente - profundidade, tamanho, significado, intimidade - do
ontem, é preciso lembrar que sofremos com o que tem pra hoje. Ontem, aquele era
o meu ponto fraco. Hoje, meu ponto fraco não está pior nem melhor, só está
diferente. Afinal de contas, eu também sou outra - a depois - e não haveria
como as coisas de agora serem mesmo iguais a de ontem.
Se a dor parece maior, é que talvez os
meus sentimentos estejam ficando um pouquinho calejados, um pouquinho mais
usados. Mas continuam ai, com uma infinidade. Ah, uma coisa é certa: infinidade
é infinidade. O que era infinito antes, continua sendo infinito agora, as
possibilidades continuam sendo várias, infinitas. E elas só mesmo tendem a
crescer, porque as situações acabam sendo cada vez mais diferentes, criando
cada vez mais opções e caminhos.
Segue, segue e entendam que as rachaduras
na parede sorriem para você não com o anúncio de que a estrutura está fraca...
mas sim que estamos todos sujeitos às ações do tempo.
Texto de 21/07/2014
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