domingo, 7 de outubro de 2018

Desfecho

Sonhei que tinha escrito e falado tanto sobre o amor, que de repente ele se personificou. Saiu das páginas do meu  caderno de capa azul escuro e me perseguiu, me fez mal. Mas eu, de alguma forma, o tirei de dentro de mim e de dentro de casa. Foi como num filme de ficção, no qual a mocinha combate, até se sentir exaurida, o vilão; como num filme, finalmente a personagem principal vence quando vence a si própria e muda de postura. Minha postura no sonho foi de grande radicalismo: eu gritei com esse alienígena, com esse monstro e anomalia que um dia chamei de amor e o joguei pela janela para longe de minha casa. Não sei o porquê, mas eu não conseguia sair de casa com essa personagem me perseguindo. As janelas pareciam ter grades, a casa escura e bagunçada, parecia o mundo invertido. E apesar de às vezes eu gostar de companhia, era difícil me mover e fazer qualquer coisa dentro de casa.
Para que eu pudesse me livrar dessa criatura, a solução foi jogar com toda força meu caderno de capa azul escuro pela janela de casa. Foi como se aquele espectro estivesse ligado às palavras mágicas que eu havia depositado ali, e seguiria para onde quer que estivesse aquele portal, chamado de caderno de capa azul escuro. Então decidi me desfazer desse objeto tão querido por mim em prol de uma causa maior. Joguei pela janela, e ele foi parar no meio da rua.
Alguém se interessou, uma menina o viu no asfalto e o pegou. Eu vi a cena toda. E como eu podia sair de casa após ter me livrado daquele monstro, tive que sair e pedir o caderno de volta. Não que eu quisesse mais daquele amor que fez mal, mas porque tinha outros sentimentos escritos ali que valiam a pena ter consigo. Me desesperei ao pensar que todo meu coração estaria exposto para quem fosse ler, e que aquilo poderia servir de conjura para quem quer que falasse sobre aquele amor.
Terminou o sonho, bem longo por sinal, com o monstro vencido, e aquelas palavras, que pareciam perdidas e que não valiam a pena, recuperadas. Quando pedi para a menina me devolver o dito caderno, ela disse que queria saber como fazia para ser eu. Ela disse algo desse tipo...depois de eu ter vencido meus demônios, escutei que queriam ser como eu, que parecia tão centrada e correta. Logo eu, que tive que exorcizar sozinha minha morada para poder viver em paz e não como hospedeira.
Não acho que o monstro iria aparecer de novo em minha casa. Acho que fechei o portal ao mudar minha postura e não aceitar mais viver naquele mundo obscuro. Estava claro que não se tratava de amor, e sim de ilusão, ou talvez coubesse falar aqui de outras coisas que no caso ainda estou a refletir sobre. Mas uma coisa é certa: não haveria mais espaço para aquele tipo de sentimento tão forte que tinha forças para se personificar. Foi com esperança que o sonho terminou, foi sentindo esperança que fechei meu portão e entrei em casa com meu caderno, cheio de palavras, de amor por mim mesma e de demônios exorcizados.
É cada loucura que a gente comete em nome do sentir.
Eu ainda quero amar muito mais, e não vão me calar. Ainda vou escrever muito mais sobre o amor, e sobre qualquer anomalia e, se Deus quiser, sobre o amor de fato. Não desisti de sentir por conta de tudo que passei. Ainda mora amor aqui dentro.

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