domingo, 17 de fevereiro de 2019

Formas

Por diversas vezes, me pergunto se já fui esquecida por completo ou se ao menos meu nome é lembrado. Por diversas vezes, magino brechas no tempo por quais demonstro que não me orgulho de talvez ter sido grossa, e que eu não quis fechar todas as portas que pudessem existir. Estou aqui, apesar de não estar. Vai por mim, só parece que não estou...mas talvez esteja claro. Isso se ainda existir alguma lembrança minha.

Escrevo isso e percebi que minha postura se modificou ao longo do texto: me encolho, olho para baixo, como se estivesse pedindo desculpas. Eu nem sei bem se devo pedir desculpas, nem sei bem onde fiquei na parte de qualquer culpa - existente ou não - disso tudo. 

Ah, se eu pudesse completar qualquer vazio que há bem dentro. Talvez eu tenha tentado preencher qualquer pedaço, preencher qualquer pedaço que parecia faltar, tomar qualquer vazio que possivelmente estivesse dentro. Eu parti do princípio que havia algum espaço para ser completado, e tentei assumir a forma que precisasse. Me coloquei à força neste suposto espaço, e tentei permanecer. Mas não era nada confortável. Me dava torcicolo, artrite, gastrite, rinite, bronquite, dermatite, não sei mais quais iti. Inflamei-me. 

Eu mesma baixei minhas guardas e tentei me encaixar. Fazia todo sentido tentar me adaptar. Nem doía, eu nem sentia. E de fato não doía nada no começo. No começo, estava apenas o que realmente importa. No começo não era como no depois, que ficavam os traumas e supostos vazios de todos presentes no quarto. No depois, eu tentei ser o que parecia ser o melhor para a ocasião. Mas não era nada disso que eu deveria ser...simplesmente porque não era. Simplesmente porque começou a doer-me tudo, e tenho certeza que não fui a única a sentir incômodo. Claro, afinal, eu estava ali dentro sendo que não era ali meu lugar, não era ali que eu cabia, não era ali que eu poderia fazer sala e cozinha.  

Agora acho que saí. Tento tomar diariamente as doses do que me faz bem, do que me faz desinchar e restabelecer. Tenho ficado bem, tenho me sentindo bem. Mas uma partezinha minha ainda tenta se contorcer e verificar se, de repente, eu consigo me encaixar, me encolher, me esticar. Às vezes confiro se consigo alcançar as pontas dos pés com as pontas das mãos sem dobrar os joelhos. Sei que não devia testar isso, pois não há mais nem a possibilidade de haver espaço, definitivamente, para esperanças. E não ouso incentivar que ela renasça em mim (ou cresça). Juro que estou me esforçando para não criá-las, para deixar morrer qualquer expectativa de um dia, nem que seja geometricamente, cabermos uma forma na outra e vice-versa.


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