quarta-feira, 24 de março de 2021

Fresta

O sentimento é tão forte que preciso tomar cuidado ao aderi-lo.

Hoje resolvi visitar o local em que deixo nossas lembranças. Primeiro susto que tomei já foi nisso: quando desci as escadas para a visita, descobri que aquela gavetinha onde as guardo se tornou pequena demais. Nós não tivemos novas lembranças, mas parece que tudo que tinha foi se expandindo e tratou de abrir espaço. Tomou corpo, criou vida. E eis que esse arquivo não se trata mais de uma única e simples gaveta e sim de um grande e frondoso armário de porta única. 

Depois da surpresa, tomei fôlego e abri, decidida, a grande e pesada porta (que substituiu a gavetinha). Notei que a nova porta era de um material firme, como uma madeira bem densa. Talvez se formou desse jeito para me proteger da força do que encontro lá dentro. 

Pois então abri uma pequena fresta, um tanto arrependida assim que toquei na maçaneta. O que eu poderia esperar com tudo aquilo, será que era mesmo bom fazer visitas às lembranças que tomam corpo? Mas eu já havia feito o movimento e, assim que abriu-se uma fresta, eu vi.

Pousei sutilmente meu olhar para dentro, um tanto receosa do que iria encontrar. Ao mesmo tempo, algo me movia para manter o olhar fixo. Parecia que o tempo tinha parado.

Vi uma pequena amostra daquele turbilhão e imediatamente me dei conta de que precisava voltar a trancar tudo aquilo lá dentro. Pensando nisso, que bom que a porta era tão forte e densa. Assim que percebi que me arrependi, logo já estava fazendo o movimento de fechá-la, deixando seu peso lhe conduzir o movimento. Mas eu vi, naquela fresta que foi aberta, naquela pequena brecha...eu vi. 

Vi um festival de cores. Um caminho regado a flores que levava a diversas possibilidades. Eu vi as cores rosa e roxo, como se estivesse contemplando o universo, olhando para uma galáxia. E então algo brilhou. O brilho passou pelos meus olhos e caiu direto pro coração, numa fração de tempo, de minuto, de segundo. Lá estava meu coração relutante olhando e sentindo. A possibilidade. O perdão. A fresta. 

E aquela porta se fechou, pois o movimento das  dobradiças se completou. Foi um longo suspiro que meu coração lançou, mas logo pediu para parar. Que bom que a porta estava em seu trajeto para se fechar. Meu coração, acho que não aguentaria, precisaria de dias de repouso se fosse invadido por mais raios como aquele clarão. 

A porta se fechou. Não tem mais fresta. Mas sim, eu vi. 

Melhor não pensar mais nisso, porque não dou conta do impacto. Decidi subir as escadas e voltar aos meus afazeres. Foi só por uma fresta, mas eu vi. Levemente me arrependo, pois depois disso acredito que esse universo de expandiu mais um pouco, mesmo lá dentro de mim. E meu coração não dá brecha, ele se sente pequeno por carregar tanto.


21/03/2021

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