E então quando estávamos nos beijando e tocou, sem querer, na rádio, uma canção mais calma e de certa forma romântica, eu me senti escorregando num corredor de emoções. Mas foi como se um outro eu dentro de mim fizesse questão de trocar de canal em apenas dois segundos. Foi o tempo da canção tocar o meu consciente para eu me movimentar. Foi engraçado, e hoje percebo a cena exatamente como escrevo. Sabe quando você muda de canal muito rapidamente, mas por um pedaço de segundo percebe que queria ver a propaganda do canal anterior, do qual mudara? Foi esse sentimento super momentâneo e rápido que senti.
Na real eu queria ver a propaganda até o fim. Mas não me permiti voltar ao canal com a propaganda em questão. E então eu me desfiz do beijo e ri, disfarçando até pra mim mesma aquele sentimento, e disse "nossa, vamos mudar de música?". A frase quis dizer, no melhor dos sentidos, o seguinte: "nossa, vamos trocar de música para eu não me apaixonar?" Foi mais ou menos isso que eu realmente quis falar. "Ei, ficou bonito demais, preciso trocar de música, vou me apaixonar! É isso que você quer?". E então acho que essa foi a primeira vez que eu conscientemente me segurei para não deixar fluir as emoções para além do que já estava a fluir.
Mas se tem algo que despenca, uma hora ou outra, é a emoção. Ficamos tão cheios dela, que transbordamos, seja algo ruim ou algo bom. Claro que o grau das catástrofes depende da força que você empenha para que aconteçam. Nos dias seguintes, eu logo fiz questão de deixar para lá, foquei em outros assuntos que realmente precisavam do meu foco. Não que aquela noite tinha desocupado minha mente e...foi então que, de mansinho, sem perceber, transbordou tudo e nem notei, nem fiz cerimônia, talvez tenha até a banalizado, não a compreendido. Resolvi dessa vez colocar num potinho esse excesso e fui deixando desfalecer, não sei. Eu deixei quietinho até mesmo para mim mesma. Talvez eu esteja um tanto calejada dessas decepções cotidianas que, queira ou não, acontecem e, uma hora ou outra, eu tinha mesmo que saber lidar com isso. E estou lidando melhor. Afinal, eu escolhi tirar a música, certo? Eu acho que você também escolheu tirar a música naquele momento; pensamos juntos, parece. Talvez, você tenha sentido a mesma coisa que eu; pois é, já pensei nessa possibilidade. Mas então isso seria me iludir de novo, e eu não estou querendo cair de novo.
Mudamos a música, curtimos a companhia um do outro, falamos de tudo e de todos, falamos sem perceber o tempo; falamos como velhos conhecidos que estavam se conhecendo ali porém tínhamos um certo aconchego para abrir qualquer assunto. Sabe esse sentimento de novos conhecidos, ou velhos desconhecidos? É isso: sentir bem e à vontade com alguém que mal conhece. E que quer conhecer cada vez mais.
O legal é que dessa vez eu sabia que não te conhecia e estava ali com ouvidos de ouvir, não de inventar e interpretar tudo a todo momento. Despretensiosa. Eu te ouvi porque eu gostava. Não é maravilhosamente simples? E isso não é o mais genial de tudo, afinal? Depois de tudo que já me meti, ouvir sem pretensões, simplesmente porque é bom, é uma grande conquista para mim. Eu sei que me apaixono fácil, enxergo brilho em tudo, dizem que é o mapa astral. E dessa vez eu fiquei, ativamente, presente naquele momento, aproveitando e enxergando. Aproveitando que você tinha vindo me ver e que era muito gentil. Que por trás de algumas histórias em que parecia que era durão, era um doce de pessoa. E eu sei que essa conclusão não é de gente cegamente apaixonada - eu realmente vi doçura em você. Vi um potencial de ternura que eu não via há um tempão. Sabe aquele carinho escondido sem a intenão de assim ser? Foi isso que me mostrou.
E agora vocês devem pensar "ahhh olha só o que a moça, que disse que não se apaixonou, acabou de escrever!!". E eu digo que talvez eu tenha me apaixonado pelo momento que vivi - coisa rara e especial, que eu não fazia com bem pouca frequência. Ficou marcado em mim o jeito que você me beijava, docemente.
Quando nos despedimos pela última vez - sem eu desconfiar que era a última, sem talvez eu nem pensar que era a última - você me beijou novamente e em seguida me beijou a bochecha. Aquilo me transbordou - foi ali, não tinha mais porque eu não aceitar. Resgatei o potinho do sentimento que parecia guardado e me vesti dele. Ali sim, escorrei no corredor dos sentimentos e vi a propaganda - a propaganda estava no final, mas pude ver o desfecho dela, tinha voltado ao canal a tempo, eu tinha conseguido! Mas logo em questão de dois segundos, novamente, eu me dei conta do que estava possivelmente acontecendo e parece que o consciente experiente trouxe sua opinião. A primeira reação foi ter escorregado mas, claro, tudo em silêncio, sendo representado por um sorriso. Já a segunda reação foi respirar, segurar a vontade de admitir que eu queria muito mais (e queria mergulhar de cabeça, sem me preocupar), olhar pro horizonte e pensar "o que isso quis dizer? Eu gosto dele? Ele gosta de mim?". Pensei comigo e, claro, disfarcei com um outro sorriso esse questionamento tão gostoso e tão tortuoso. Então eu olhei para ele, lhe dei mais um beijo e agradeci pela noite. Estava já com a porta aberta e disse para ele "a gente devia fazer isso mais uma vez, mais vezes". Ele sorriu. E deve ter mudado de canal ali.
E então foi a última vez que nos vimos. Sem título, sem continuidade, mas com o presente bem vivido. É, podia ter sido mais legal ainda, quem sabe. Mas deixa assim, sem título, para não me confundir. Quem sabe um dia coloco um nome à altura dessa experiência que é amar - por breves segundos - e perceber que aquela não é a hora certa.
Eu retorno ao potinho que guardo esse excesso e quem sabe o uso algum dia. Só sei que está tudo aqui.
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