domingo, 21 de outubro de 2018

Festa

De vez em quando, somos bombardeados por aquela turbulência criativa que acomete o peito e faz do coração salão de baile. Salão cheio de dança e música, movimento e risadas, cheio de espelhos e gestos e olhares. Baile dos vestidos que rodam e preenchem o ambiente. Salão com baile no qual as cores enchem nossos olhos de apetite.

Conseguimos ouvir a música, faz nossos pensamentos dançarem, fluidos, e os passos da dança são as palavras que aqui escrevo.

Mas hoje...hoje o salão está vazio.

Hoje o salão está com luzes apagadas, o piano foi coberto com um lençol no canto para se proteger do pó. As cadeiras foram retiradas. Os espelhos refletem apenas uma pessoa: eu mesma. Dou passos e tudo que escuto são o bater das solas no assoalho de madeira encerada. As luzes apagadas e as cortinas recuadas. A luz natural é decorrente uma tarde chuvosa e o salão dourado é iluminado como apenas uma chuva às três da tarde sabe iluminar. Me aproximo de um dos espelhos. Estou sozinha. Toco na superfície do espelho, como uma tentativa de relembrar todos os bons momentos que ele refletiu. Mas não consigo...ficamos eu e minha memória olhando-se cara a cara. Ficamos eu, o espelho, a memória e o som da chuva ali, a dançar devagarzinho. Um movimento atrás do outro, devagar, ao ritmo dos pingos que caem determinados lá fora. Um piscar de olhos. Um girar de emoções. Dois passos para trás. milhares de possibilidades de novos passos adiante. O mundo refletido aqui. Meu mundo ao dançar ali, no salão vazio, no tardar dos sentimentos, na persistência em sonhar. O mundo. 

Hoje o salão está vazio. 

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